A fúria épica de Ajax
Era uma vez uma grande civilização que decidiu expulsar a Anglo-Iranian Oil Company. Pronto. O resultado: sete décadas -- e contando -- de sabotagem pelas potências capitalistas.

“Não é nenhum Winston Churchill”, disse Donald Trump na última terça-feira, 3, referindo-se ao primeiro-ministro do Reino Unido, Keir Starmer; Trump reclamando de Starmer por o Reino Unido não ter ajudado os EUA no ataque ao Irã. Isso está em todos os jornais.
Já isto aqui, a seguir, está no livro “Todos os homens do xá”, do jornalista estadunidense Stephen Kinzer. Trata-se do agente da CIA Kermit Roosevelt, neto de Theodore Roosevelt — 26º presidente dos EUA —, mal contendo a emoção ao entrar em território iraniano por um remoto entroncamento, em julho de 1953, para chefiar em campo a Operação Ajax — a operação da CIA e do MI5 para derrubar o primeiro-ministro Mohamed Mossadegh.
“Lembrei-me do que meu pai escreveu sobre sua chegada à África com o seu próprio pai, T. R., em 1909, na viagem do African Game Trials. ‘Era uma grande aventura, e o mundo inteiro era novo!’ Eu me senti como ele deve ter se sentido naquele momento. Na subida da montanha, todo o meu corpo formigava de excitação, minha felicidade era total… Em 19 de julho de 1953, nos deparamos com um funcionário singularmente negligente, além de bronco e semi-analfabeto, do serviço de alfândega e imigração em Khanequin. Naquele tempo os passaportes americanos traziam, ao contrário de agora, uma curta descrição de algum traço notável do seu portador. Incentivado e ajudado por mim, o guarda copiou escrupulosamente o meu nome como ‘Mr. Scar on Right Forehead’, o que me pareceu um bom presságio.”
Eleito democraticamente em 1951, Mossadegh, ato contínuo, expulsou do Irã a Anglo-Iranian Oil Company, libertando seu país da submissão ao poder estrangeiro, para alegria do povo iraniano e suscitando a fúria do Império Britânico. No que, conforme Kinzer, “o primeiro-ministro Churchill, produto exemplar da tradição imperial, não hesitou em decidir pelo golpe”.
O 34º presidente do USA, Dwight Eisenhower, produto exemplar da Guerra Fria, tampouco titubeou quando foi procurado pelo Reino Unido para ajudar a derrubar Mossadegh, encagaçado diante do cenário pintado pelos britânicos de que o Irã poderia virar uma “segunda China”.
Daí para o neto de “T. R.” subir uma montanha persa formigando de excitação, foi um pulo.
Setenta e três anos atrás, o governo democrático de Mohamed Mossadegh no Irã foi derrubado pelos EUA e pelo Reino Unido e, em seu lugar, a Casa Branca e Downing Street, Langley e a Thames House instalaram a longa ditadura do xá Mohamed Reza, que por sua vez desaguou na teocracia dos aiatolás.
E aqui estamos, com a Operação Fúria Épica, desencadeada por Trump e Netanyahu contra o Irã-produto da Operação Ajax. Para o povo iraniano, desgraça pouca é bobagem. Sete décadas — e contando — de sabotagem a uma grande civilização pelas potências capitalistas são o resumo dessa história.

