Brizola: os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto
Há 104 anos, no dia 22 de janeiro de 1922, nascia Leonel Brizola.
Leonel de Moura Brizola faria 104 anos nesta quinta-feira, 22.
‘Parecia estar num voo acima de tudo’
Estamos em 1982. Três anos após voltar do exílio, Leonel Brizola é candidato a governador do Rio de Janeiro. Abrindo a biografia de Brizola escrita por Clovis Brigagão e Trajano Ribeiro, o fotógrafo Aguinaldo Ramos conta a história da foto “Brizola pula a fogueira”, feita no subúrbio carioca durante um ato daquela histórica campanha eleitoral.
Conta Aguinaldo Ramos:
Um dia [do ano de 1982], saí da redação do JB com o repórter J. Paulo para acompanhar o então candidato a governador [Brizola] num roteiro pela Zona Norte da cidade. No começo da tarde estávamos no conjunto Amarelinho, em Irajá, junto à Avenida Brasil. As lideranças locais aproveitaram a promissora visita para fazer, além da luta pela reforma do conjunto, uma manifestação pela paz na comunidade, cercada de favelas. Promoveram a queima, em grande fogueira à frente do conjunto, das armas de plástico recolhidas das crianças. Brizola ganhou a honra de atear o fogo, o que fez com prática de gaúcho churrasqueiro. De repente, vira-se para o mais destacado cabo eleitoral local e pergunta: “tens coragem de pular a fogueira, tchê?!... então vai na frente que eu vou atrás!”.
Os assessores, até mesmo o futuro prefeito Marcelo Alencar, também na campanha, tentaram preservar o chefe. Nada adiantou, Brizola estava tranquilo e ia pular.
Eu me preparei como pude... Busquei uma posição lateral, pus a 24 mm (a maior grande angular que tinha ali), me agachei, mantive o dedo no obturador. O líder local, com a maior desenvoltura, cumpriu sua parte. Acompanhei de rabo de olho, sem apertar, preocupado com Brizola, que podia nem esperar o salto do outro. Ou, refugar... Brizola tinha os olhos fixos na fogueira e um sorriso maroto no rosto. Com suas botinas de gaúcho exilado, camisa azul-clara de mangas arregaçadas, arredou um pouco a garotada, abriu uma roda, concentrou-se e, sem considerações, partiu! No meio do caminho, abriu os braços, parecia estar num voo acima de tudo. aterrissou com perfeição, sem qualquer escorregão ou derrapagem.
E quase estourou a guerra no Hotel da Paz
Outra história de Leonel Brizola contada no livro de Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro:
Na década de 1970, durante o turno de Ernesto Geisel à frente da ditadura civil-militar no Brasil, Brizola, no exílio, foi a Roterdã para fazer contatos com o Partido Trabalhista Holandês e encontrar outros brasileiros exilados, após participar de uma reunião da Internacional Socialista na Alemanha. O engenheiro estava acompanhado de Trajano e sua esposa, Maria Ribeiro, e Moniz Bandeira.
Ao final do seu primeiro dia na Holanda, Brizola recebeu o pernambucano Maurílio Ferreira Lima, ex-deputado cassado, e seu irmão, Bruno Ferreira Lima. À noite, Brizola, Trajano e os irmãos Ferreira Lima conversavam no átrio do Hotel da Paz sobre a situação no Brasil. Durante a conversa, Trajano notou que um homem encostado na recepção prestava atenção no que diziam e sugeriu que o grupo se retirasse para um local mais reservado.
No caminho para o elevador, Trajano alertou Brizola sobre o homem que os observava e disse que, “pela pinta”, era brasileiro. “Não é possível. Tu estás vendo guampa em cabeça de égua”, replicou Brizola.
Segue o relato do livro:
Trajano foi até o recepcionista e perguntou-lhe se o homem que estivera algum tempo encostado no balcão era brasileiro, e o holandês confirmou. Voltou ao grupo em frente ao elevador:
- É brasileiro, governador.
- Mas onde ele está?
- Entrou naquela sala.
Trajano apontou para uma sala ao lado do salão de recepção, onde o homem acabara de entrar. Brizola dirigiu-se a passos largos para lá. Trajano e os Ferreira Lima os seguiram. Era uma sala de estar, onde um grupo assistia a televisão. Trajano mostrou a Brizola o homem. Para seu espanto e dos irmãos pernambucanos, Brizola dirigiu-se ao indivíduo, sentado numa poltrona, postando-se à sua frente:
- Boa noite.
- Boa noite.
- Brasileiro?
- Sim, sou brasileiro.
- Passeando?
- Não, trabalhando. Na verdade, fazendo um curso.
- E o amigo trabalha em quê?
- Sou da Marinha do Brasil.
Refazendo-se do impacto da surpreendente resposta, Brizola disparou:
- Eu sou Leonel Brizola e lhe desejo sucesso na sua missão. Boa noite.





