História recente da peçonha
Tipo: Lula está “falando com o demônio” depois de receber uma imagem de Xangô e tomar um banho de pipoca de Obaluaê.
Por estes dias, apenas os primeiros dias do ano eleitoral, Flavio Bolsonaro e criaturas que tais andaram espalhando via Meta e via X que Lula teria afirmado que “pobre não precisar estudar”. Como assim? Foi assim: na semana passada, em uma cerimônia em Brasília pelos 90 anos da criação do salário mínimo, Lula usou a primeira pessoa para criticar, digamos, a “expectativa” das elites brasileiras sobre as classes populares: “pobre não nasceu pra estudar, porra! Você nasceu pra trabalhar!”.
Não é novidade, a artimanha. Em setembro do ano passado, circulou feroz nas redes sociais um vídeo mostrando Lula supostamente atacando negros e pobres com uma coleção de declarações preconceituosas. Em uma delas, Lula aparecia dizendo que “negro não tem que aprender, negro tem que trabalhar”. O que não aparecia no vídeo era que Lula, na verdade, tinha usado a frase para ilustrar a “mentalidade escravagista” delas, as ferozes elites nacionais.
Antes, em 2023, e na mesma linha, espalhou-se como um rastilho de pólvora entre paióis, ou melhor, entre grupos de WhatsApp, um vídeo de Lula dizendo que o “papel do trabalhador é trabalhar e o papel do pobre é esperar as políticas de ajuda do governo”. O vídeo puxava ali do baú dos preconceitos que grassam nas classes médias do país a aversão ao Bolsa Família. Lula, na verdade, tinha criticado a histórica ausência de políticas de inclusão social nos países da América Latina. Mas isso a Globo, ou melhor, a Meta não mostra.
Há quatro anos, em 2022, a poucos dias do segundo turno das eleições daquele ano, o que viralizou foi um vídeo de apenas oito segundos falseando, desvirtuando, adulterando uma fala de Lula contra os políticos que só lembram dos pobres em período eleitoral. Como? Para quê? para fazer crer que ele, Lula, o presidente que mais tinha feito contra a miséria na história do Brasil, largaria os pobres à própria sorte tão logo acabassem as eleições.
Ainda mais lá atrás: em janeiro de 2022, começaram a circular na internet vídeos manipulados que mostravam recortes de um encontro de Lula, meses antes, com lideranças do movimento negro em Salvador; vídeos que mostravam frases de Lula picotadas e rearranjadas de modo a fazer crer que o então pré-candidato à presidência da República estava “falando com o demônio” depois de receber uma imagem de Xangô e tomar um banho de pipoca de Obaluaê.
A fala completa de Lula na Bahia tinha sido a seguinte:
“Ontem, quando eu cheguei, as mulheres no palco jogaram pipoca em mim e me entregaram um santo, me entregaram um Xangô. E nas redes sociais do bolsonarismo, eles estão dizendo que eu tenho relação com o demônio, que eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim. Mas é uma campanha massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal, massiva, é uma campanha violenta como eles sabem fazer, do mal. Eles só sabem fazer isso.”
O que fez, então, por exemplo, ele, Flavio Bolsonaro? Compartilhou um vídeo editado no qual Lula aparecia dizendo apenas que “eu estou falando com o demônio e o demônio está tomando conta de mim”. E fez, o 01, a seguinte convocatória a seus milhões de seguidores nas redes sociais: “marque seu pastor, padre, rabino nos comentários. Envie este vídeo a sua liderança religiosa e pergunte o que ela pensa disso. A guerra é também espiritual”.
O TSE foi acionado e em maio de 2023 — só em maio de 2023, quase um ano e meio depois — Flavio foi punido, mas apenas com uma multa de R$ 5 mil…
O responsável pela publicação do vídeo desfigurado, da peçonha compartilhada por Flavio Bolsonaro, um vereador bolsonarista chamado Rômulo Quintino, também foi multado e hoje ele é superintendente da Administração de Cemitérios e Serviços Funerários de… Cascavel. Flávio Nantes Bolsonaro é senador e pré-candidato à Presidência da República e agora as “deep fakes”, como as eleições de 2026, estão aí. As mentiras ultrarrealistas feitas com IA estão aí, à mão que fazia a rachadinha, e até agora sem soro antiofídico eficaz.



