Huguinho e a tarde em que seu pai o levou para conhecer o Guernica
"Na Idade Média, assim como no Terceiro Reich", quem sabe em breve perto de você.
Uma chuva fina que caía em ângulo agudo por causa de um vento que vinha ali do Manzanares foi o suficiente para fazer os seis graus Celsius marcados por volta das três da tarde desta segunda-feira, 26, em Madri da Espanha, parecerem na verdade seis graus abaixo de zero, se não menos.
De modo que a pequena caminhada da Estacíon del Arte do metrô até o museu Reina Sofia me fez lembrar, na hora, quando nos domingos de inverno eu andava da ponte sobre o Neckar até a Martkplatz de Tübingen, na Alemanha, para a feira semanal ou para sentar-me em alguma coisa mais velha que o Brasil para ler pela primeira vez, tardiamente, Cem anos de solidão.
E o coronel Aureliano Buendía a recordar, diante do pelotão de fuzilamento, o dia em que seu pai o levara para conhecer o gelo. E aos domingos eu passava ao lado da velha igreja luterana e bem debaixo da janela da igreja cujo “gradeado” é na verdade uma escultura desconcertante, uma representação de dar calafrios da roda de Santa Catarina.
Também conhecida como roda do despedaçamento, o que hoje está apenas na janela de uma velha igreja em Baden-Württemberg foi um modo de tortura e pena de morte de nome autoexplicativo usado na Alemanha da Idade Média até o século XIX, em nome da verdade e da justiça.
Faz mais de 20 anos que voltei da Alemanha e foi precisamente há duas décadas, no inverno de 2006, que estive na Espanha, em Madri, no Reina Sofia, tudo pela primera vez, para conhecer algumas senhoras e alguns senhores muito talentosos. Nesta segunda, eu estava a poucos metros de apresentar meu filho de 11 anos ao senhor Pablo Picasso quando um outro velho com um talento enorme, este dadaísta, pegou a gente pelo caminho.
Em 2024, o Reina Sofia incorporou ao seu acervo parte do trabalho do combativo artista alemão John Hertfield (1861-1968). Uma das peças da exposição “John Heartfield, 33 fotomontagens” mostra uma foto do suplício na roda de Catarina esculpido na janela lateral da Stiftskirche de Tübingen, mostra logo abaixo um homem moído, despedaçado na suástica e, sobrepostos, os dizeres: “na Idade Média, assim como no Terceiro Reich”.
Chove lá fora e, por trás dos vidros e esquadrias, o mundo parece assistir desconcertado ao Quarto ensaiar em Minneapolis. Em Tübingen, não muito longe da Stiftskirche, de sua janela terrivelmente circular, há uma janelinha pagã de ângulos retos e com uma plaquinha muito velha também, posto que muito atual: Hier kotzte Goethe (“aqui Goethe vomitou”).
“Vem, filho — chamei o Huguinho — o Guernica está logo ali”.



