Lula na Marambaia: quando a exaltação da natureza elimina a política e ignora a pororoca
O ano eleitoral está aí e todo mundo sabe que vai ser punk. Não demonstrar claramente que há um inimigo feroz a combater seguramente não é o melhor caminho para enfrentar a tempestade.
As ondas vêm da direita, vêm da esquerda e, juntas, formam o mar. Extraordinária lição da natureza para os humanos: vamos acabar com essa polarização, esse preconceito entre esquerda e direita, vamos seguir juntos, unidos, na direção do bem comum.
Foi esse o recado que Lula quis dar no vídeo que vem circulando neste início de ano, quando ele e a mulher caminhavam tranquilamente pelo suave encontro de águas na Restinga da Marambaia, área militar, de acesso restrito, que os presidentes da República costumam frequentar nessa época.
Na mesma hora me lembrei da palestra de Marilena Chauí no seminário sobre Ética, organizado por Adauto Novaes no início da década de 1990. Mais especificamente deste trecho:
Os seres humanos são diferentes de todas as outras coisas que existem. Que diferença é essa? Todas as coisas que existem estão submetidas às leis necessárias da natureza. A natureza é um enorme sistema de causas e efeitos. Aquilo que a gente chama de determinismo. Na natureza tudo tem causa, tudo produz um efeito, e a relação entre a causa e o efeito é uma relação necessária. Na natureza não existe acaso. Na natureza não existe jogo. Na natureza não existe liberdade.
Ao contrário, a marca dos seres humanos é a liberdade. Os seres humanos não pensam e não agem segundo relações de causa e efeito. Eles agem por escolha. Por deliberação. Por decisão.
Eles agem por liberdade.
Eles agem escolhendo os fins das ações que realizam. (...) E, portanto, o reino humano, ou a esfera humana, é diferente do resto da natureza.
Essa separação entre a natureza e os humanos se deu a partir de um critério que fundamenta a ética, que é a liberdade e a finalidade. Se a política vai operar com o critério da liberdade, da justiça, das finalidades humanas, então há na raiz da política um valor que é ético.
Valeria a pena pensar no que significa ignorar isso e afirmar que, como supostamente ocorre na natureza, podemos conviver harmoniosamente, como se a política não fosse definidora da nossa existência como seres inescapavelmente sociais. Como se, no Brasil, não estivéssemos vivendo um processo continuado de golpe desde a eleição de Dilma, em 2014. E como se a história de todas as sociedades não fosse a história da luta de classes – mas, ora, que coisa mais antiquada, quem sabe até “cafona”, para se dizer.
Para manter o equívoco da metáfora, seria preciso considerar que a natureza é sempre suave como as minúsculas ondulações das águas da Marambaia, que fazem chuá-chuá e acariciam os pés de quem caminha placidamente pela areia ao pôr do Sol, enquanto exibe uma forma invejável para alguém com 80 anos, numa inconteste prova de vigor que excitou as redes sociais.
Conviria então lembrar que o encontro das águas também produz pororocas.
Quanta violência, não é?
Pois é, a natureza é assim.
O ano eleitoral está aí e todo mundo sabe que vai ser punk.
Despolitizar, não demonstrar claramente que há um inimigo feroz a combater, fingir que é possível conciliar com forças determinadas a destruir nossa já tão frágil democracia, seguramente não é o melhor caminho para enfrentar a tempestade.
Ou, pior ainda, o tsunami.




