Manchinha, Orelha, esses nomes tão peculiares
"Eles uivaram apenas uma vez, nem muito alto nem muito demorado, mas o uivo continha tanta melancolia que até quem não podia ouvi-lo revirou-se na cama."
No dia 28 de novembro de 2018, uma cadela de rua chamada por todos de Manchinha foi envenenada, espancada e morta no Carrefour de Osasco. Em dezembro daquele ano, a Polícia Civil de São Paulo indiciou um segurança terceirizado do supermercado pelo crime de abuso e maus-tratos a animais.
No tempo entre o crime e a conclusão do inquérito em São Paulo, no Rio a 7ª Vara Cível da Barra da Tijuca precisou determinar que o Carrefour da Barra não praticasse atos que pudessem “ocasionar o extermínio de gatos eventualmente existentes no interior do supermercado”.
O grupo transnacional francês, maior varejista alimentar que opera no Brasil, não foi responsabilizado pela terceirização da atividade-meio, por assim dizer, que deu cabo de Manchinha. Agora, dois empresários de Florianópolis, pais dos frequentadores da Disney que deram cabo de um cão idoso na Praia Brava, em Florianópolis, acabam de ser indiciados pela Polícia Civil de Santa Catarina por coação de um segurança que teria provas do assassinato, o assassinato do Orelha.
Em dezembro de 2018, 20 dias após o assassinato de Manchinha no Carrefour de Osasco, o Carrefour de Osasco pegou fogo. Em uma coincidência impressionante, começa assim o conto “Velório”, do escritor australiano Shaun Tan, que se notabilizou por explicar para as crianças, com sensibilidade ímpar, o quão duro, cão, é o mundo lá fora: “aconteceu um incêndio na casa de um homem que, poucos dias antes, havia matado seu cachorro a pauladas”.
E segue:
“Ele era um homem forte e por isso conseguiu salvar todos seus pertences sozinho, carregando-os da casa para o jardim. Assim que terminou, uma centena de cachorros de todos os tamanhos e formas correu diante das luzes oscilantes, vindos das trevas ao redor, e prontamente sentaram em cima de cada eletrodoméstico e de cada móvel restantes, como se fossem os donos. Além de não deixarem o homem chegar perto e rosnar ferozes quando ele tentava bater neles, ficavam estáticos, olhando impassivelmente para as chamas”.
“O fogo era de uma intensidade surpreendente e a casa veio abaixo em questão de minutos. O homem, enfurecido, saiu procurando uma arma. Como se tivessem entendido, os cachorros pularam para o chão e começaram a circular calmamente pelas trevas enfumaçadas, revezando-se para urinar sobre cada objeto salvo pelo homem. Eles uivaram apenas uma vez, nem muito alto nem muito demorado, mas o uivo continha tanta melancolia que até quem não podia ouvi-lo revirou-se na cama”.
“E então eles se foram, espalhando-se pelas ruas e pelos becos, atentos ao som de suas próprias patas arranhando as calçadas de concreto, o chão que já fora de terra escura e selvagem. Eles não se voltaram para os últimos focos de incêndio na grama, nem mesmo para o homem que retornara segurando um pé de cabra inútil e estava parado sobre as cinzas, sozinho e chorando. Os cachorros só pensavam em seus lares: no cheiro das casinhas quentinhas, nos cobertores macios e nas camas em que os humanos dormiam, aqueles que lhe haviam dado nomes tão peculiares”.
Tipo Manchinha, como Orelha.
O conto “Velório” está no livro infanto-juvenil “Contos de Lugares Distantes”, de Shaun Tan, editado no Brasil pela Cosac Naify. As trevas enfumaçadas estão sempre logo ali, numa “área nobre” de Santa Catarina.



