O delírio vitimista dos Bolsonaro
A condição da prisão de Nicolás Maduro é muito mais severa e precária que a de Jair Bolsonaro. Dizer como Eduardo Bolsonaro disse, ter "inveja da situação de Maduro”, é um acinte à inteligência.
Em resposta a imagens de Nicolás Maduro atravessando um corredor da detenção onde se encontra em Nova Iorque e tomando banho de sol, Eduardo Bolsonaro considera as condições do presidente venezuelano melhores que as do pai, em vídeo postado desde o estrangeiro pelo político de carreira auto exilado:
“Quando você vê esse tipo de imagem, onde ele pode andar em um bom espaço, eu começo a comparar com meu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que foi condenado a 27 anos de prisão. […] Apesar de tudo isso, hoje meu pai vive em um lugar que tem… eu não sei, uns 30 metros quadrados, ouvindo o dia inteiro, todos os dias, esse barulho que vem do ar.”
(Na verdade, a cela de Bolsonaro tem 12 m², qualquer ajudante de pedreiro sabe a diferença de 30m² pra 12m², 5x6 para 4x3).
Ainda diz mais:
“Quando você pensa que algo pode acontecer com o Maduro, ele com certeza receberá a assistência médica necessária. Meu pai, durante a noite, caiu e bateu a cabeça em algum lugar, e as pessoas só souberam que algo tinha acontecido no dia seguinte pela manhã, quando abriram a porta para ver como Bolsonaro estava”, e que o pai é “o único que precisa de autorização de um ministro do STF para ir a um hospital”.
Onde Maduro está preso?
Após ser sequestrado em Caracas junto com sua esposa, em uma operação ilegal do ponto de vista da legislação internacional e que matou dezenas de oficiais e civis inocentes, o presidente Maduro foi levado pela DEA (polícia antitráfico norte-americana) para o Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn (MDC, na sigla em inglês), em Nova Iorque, depois de passar por outros lugares, como a famigerada base de Guantánamo.
O MDC é um antigo armazém na zona portuária de Nova Iorque convertido em carceragem na década de 1990 para tentar desafogar as cadeias da cidade. O prédio foi construído para ser um centro de detenção provisória com capacidade para até mil detentos, mas o presídio hoje opera com mais de 1.350 presos, entre investigados e condenados, estando constantemente superlotado. Presos a mais e funcionários de menos: a detenção já chegou a operar com apenas 55% do pessoal considerado necessário. E a superlotação não é o maior problema. O MDC abriga diversos presos perigosos e líderes de cartéis, além de “celebridades” condenadas por crime de estupro. Devido à falta de controle, brigas e agressões são constantes, o que muitas vezes leva à morte. Em junho de 2024, um detento foi morto a facadas dentro do presídio. Em julho do mesmo ano, outro detento morreu em uma briga. O advogado de um deles classificou a prisão como um “inferno na Terra”. Outra causa de mortes são os suicídios: quatro entre 2021 e 2024.
As condições insalubres vão de mofo e fungos a falta de iluminação, apagões elétricos e falta de sistema de aquecimento no inverno severo nova-iorquino. Muitos juízes se negam a mandar réus para o presídio, propondo penas alternativas na impossibilidade de serem encaminhados a outro lugar.
Maduro provavelmente não sofre diretamente com a superlotação, já que deve estar em regime de solitária, numa cela de 2,4 por 3 metros, contando com um sanitário de metal e uma cama igualmente de aço. O atendimento médico e odontológico, devido à falta de pessoal, também é precário, precisando na maioria das vezes de pedidos feitos pelos advogados dos detentos.
Qual a condição real de Bolsonaro, Jair
Condenado por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente Jair Messias Bolsonaro cumpre pena de 27 anos e três meses em regime fechado em uma carceragem especial da Polícia Federal que consiste em uma suíte convertida em cela com 12m², cama, colchão, frigobar, banheiro privativo, TV e o famigerado sistema de ar condicionado.
Bolsonaro ainda conta com comida diária levada de casa, visita íntima com a esposa sem necessidade de pedido, visitas marcadas de meia hora com familiares e apoiadores, fisioterapia diária, acesso irrestrito de médicos e entrevista para a imprensa com autorização judicial prévia.
O barulho de ar condicionado do qual Bolsonaro reclama não é exclusivo a ele, sendo do sistema de refrigeração central do prédio da PF em Brasília e ouvido da mesma forma por todos os agentes e demais detidos, profissionais e demais visitantes que por ali passam.
O que podemos concluir fora do mimimi de alecrim dourado
A condição da prisão de Nicolás Maduro é muito mais severa e precária que a de Jair Bolsonaro, sem contar os antecedentes legais e ilegais que levaram a tais situações distintas com ou sem culpa comprovada. Dizer como Eduardo Bolsonaro disse, ter “inveja da situação de Maduro”, é um acinte à inteligência, mas não destoa do discurso ordinário frequente de “perseguição e tortura” contra o ex-mandatário com histórico de atleta que debochava de vítimas da pandemia. O objetivo é forçar uma anistia para retomar a antiga trama golpista.




