O quarto branco do BBB e a 'geladeira' da ditadura
Uma concessão pública não deveria poder exibir, a título de reality show, sessões de “desgaste físico e emocional” para forçar o esmigalhado a tomar “decisões impulsivas”. O nome disso é tortura.
“Precisamos voltar os olhos para o futuro, chegam a dizer certos senhores com o cinismo habitual. A pergunta, então, poderia ser: em que museu de nosso país estão expostos o pau-de-arara, o choque elétrico, o magneto de telefone, a prancha, a cadeira-do-dragão, o pênis de boi, a luz intensa, o amoníaco, a injeção de éter, o torniquete, os socos, os pontapés, os alicates, as roldanas?”, disse em 1994 o então deputado estadual Marcos Rolim, do PT, em discurso feito na tribuna da Assembleia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul no dia do aniversário de 30 anos do golpe militar de 1964.
Na ditadura instalada pelo golpe de 64, a prancha era uma mesa ou estrado onde o preso era amarrado para ser torturado dos mais variados modos, do eletrochoque ao “submarino seco” (asfixia com saco plástico), às vezes eletrochoque combinado com afogamento por mangueira de água corrente, bem molhada, enfiada nas narinas e na boca.
Na última quarta-feira, 14, na vigésima sexta edição do Big Brother Brasil, o ator Henri Castelli teve uma convulsão e caiu de uma prancha dentro de uma piscina após passar muitas horas de pé durante uma “prova de resistência” ou “prova do líder”.
Castelli só não se afogou porque a piscina era de bolinhas coloridas, das cores da identidade visual do Mercado Livre, um dos patrocinadores do BBB, junto com Amstel, McDonald's, Ademicon, iFood, Electrolux, Ajinomoto, Betano, TIM, Nivea, Super (Cimed), Nestlé, MRV e Cif, marca de produtos de limpeza da transnacional britânica Unilever.
Manter a pessoa de pé por muitas horas foi uma das “Five Techniques” de tortura que não deixam marcas físicas aprendidas na Inglaterra pelo notório torturador e assassino da ditadura Paulo Malhães, conforme consta no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Até não muito tempo atrás o Mercado Livre permitia a venda na plataforma de tacos de beisebol com a inscrição “direitos humanos” e ainda permite a venda desses tacos gravados com as palavras “diálogo”, “respeito” e “anestesia”.
Outra “prova” do BBB é a do quarto branco. Os participantes ficam confinados e submetidos a luz intensa e a constantes e infernais “estímulos sonoros que impactam o descanso”, como música eletrônica, carro acelerando e choro de bebê. O jornal O Globo publicou tranquilamente na editoria Saúde matéria intitulada “Quarto branco do BBB 26: o que acontece com o corpo quando ficamos sem banho?”.
“Sem conforto, estímulos visuais ou contato com o exterior, os confinados enfrentam um cenário pensado para provocar desgaste físico e emocional. A proposta do quarto branco é levar os participantes ao limite, aumentando a pressão psicológica e a tendência a decisões impulsivas à medida que o tempo passa”, diz a Rede Globo, descrevendo olimpicamente o suplício.
Em depoimentos reunidos pelo projeto Brasil Nunca Mais, presos políticos descreveram assim a “geladeira”, um dos modos de tortura usados pela ditadura:
“Havia um excesso de sons que pareciam sair do teto, muito estridentes, dando a impressão de que os ouvidos iam arrebentar”; “naquela sala havia sons estridentes, ensurdecedores, capazes até de produzir a loucura”; “passou a protestar também em altos brados contra o tratamento inadmissível de que estava sendo vítima e todos se calaram e as vozes foram substituídas por ruídos eletrônicos tão fortes e tão intensos que não se ouviu mais a própria voz”; “no teto dessa sala existia uma lâmpada fortíssima. Ao ser fechada a porta ligavam produtores de ruídos cujo som variava do barulho de uma turbina de avião a uma estridente sirene de fábrica”.
Há uma grande, enorme, gigantesca diferença entre presos políticos, que muitas vezes não sobreviveram para descrever as sevícias a que foram submetidos, e “brothers” e “sisters” que voluntariamente se apresentam a tormentos e podem interrompê-los a qualquer momento apertando um botão. Mesmo assim, uma concessão pública de radiodifusão não deveria poder exibir, a título de reality show, sessões de “desgaste físico e emocional” para forçar o esmigalhado a tomar “decisões impulsivas”. O nome disso é tortura.
O nome disso é tortura, é obvio e é como disse o ex-deputado Marcos Rolim, naquele mesmo discurso de 1999 na ALRS, sobre a necessidade de lembrar o que foi a ditadura civil-militar no Brasil nos aniversários do golpe de 64: “seria mesmo chover no molhado; seria chover no molhado se o molhado não fosse sangue”.



