'O senhor se esqueceu disso, general?'
Condenado a 21 anos por tentativa de abolição violenta da democracia, o general Augusto Heleno agora conta que tem Alzheimer, contando com a doença para ganhar da democracia a prisão domiciliar.

No dia 31 de março de 2019, aniversário de 55 anos do golpe contra o governo João Goulart e da instalação da ditadura civil-militar no Brasil, o Estadão publicou uma matéria intitulada “Onde estavam os ministros militares de Bolsonaro em 1964”. A matéria dizia que o general Augusto Heleno, por exemplo, “lembra daquele dia como se fosse hoje”.
“Eu era aluno do segundo ano científico do Colégio Militar do Rio de Janeiro. Morava na Tijuca, no Largo da Segunda-Feira, e vibrei com a queda de João Goulart, um cancro na política brasileira”, disse ao Estadão, desenvolvo, comunicativo, golpista, o então ministro-chefe do GSI.
Em 1977, oito anos depois do golpe contra o “cancro”, Heleno viria a ser nomeado ajudante de ordens do general Sylvio Frota, ou seja, o Mauro Cid do então ministro do Exército e cabeça da “linha-dura”. Frota era um anticomunista tão alucinado que acusava Ernesto Geisel de ter tendências à esquerda. Em 2023, menos de um ano depois da tentativa de golpe da qual participou, Heleno, em depoimento à CPI dos Atos Antidemocráticos na Câmara Legislativa do Distrito Federal, afirmou que “o movimento de 64 salvou o Brasil de virar um país comunista”.
Ainda em 2023, meses depois, o general Heleno e o deputado federal Duarte Jr. (PSB-MA) travaram o seguinte “diálogo” na CPMI do 8 de janeiro:
— O senhor vai negar, general, que defendeu a ditadura? Diz pra mim qual a sua opinião sobre o golpe de 64. Não foi golpe?
— Eu já falei sobre isso e vou ficar em silêncio.
— Aqui o senhor não falou. Aqui é CPMI, aqui não é CPI do DF.
— Não vou responder. Vou ficar calado.
— Qual a sua posição sobre a ditadura? Responda. Não vai responder, general? Qual a sua posição?
— Eu tenho o direito de ficar calado.
— O senhor defendeu a ditadura militar. O senhor se esqueceu disso, general?
— Vou permanecer calado.
De resto, calado permaneceu o general Heleno ao longo dos últimos sete anos sobre ser “portador de demência de Alzheimer em evolução desde 2018”, levantando o famigerado dedo nervoso do Haiti para falar sobre Alzheimer só agora, na última terça-feira, 25, quando foi preso por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado; contando só agora sobre a doença e contando com a doença para ganhar da democracia esquecimento e prisão domiciliar.
A propósito de domicílios e Alzheimer, Come Ananás reproduz abaixo um trecho do romance K., de Bernardo Kucinski. No excerto, o ex-assessor especial da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República no primeiro governo Lula relata entregas recorrentes pelos correios de cartas destinadas à sua irmã, mesmo décadas após Ana Rosa Kucinski ser morta pelo “movimento de 64”; cartas de bancos com propostas de cartão de crédito sem anuidade, com programa de milhagem, salas vip em aeroportos, “tudo isso que quase não havia quando ela existia e que agora que ela não existe lhe é oferecido”:
O carteiro nunca saberá que a destinatária não existe; que foi sequestrada, torturada e assassinada pela ditadura militar. Assim como ignoraram antes dele o separador das cartas e todos do seu entorno. O nome no envelope selado e carimbado como a atestar a autenticidade, será o registro tipográfico não de um lapso ou falha do computador, e sim de um mal de Alzheimer nacional. Sim, a permanência do seu nome no rol dos vivos será, paradoxalmente, produto do esquecimento coletivo do rol dos mortos.
Quando Ana Rosa foi sequestrada — e depois torturada, e depois assassinada — pela ditadura, em abril de 1974, a família Kucinski entrou com um habeas corpus, que foi rejeitado por força do artigo 10 do Ato Institucional nº 5 — “fica suspensa a garantia de habeas corpus, nos casos de crimes políticos, contra a segurança nacional, a ordem econômica e social e a economia popular”.
Em novembro de 2019, em uma audiência na Câmara, a deputada Sâmia Bonfim (Psol-SP) perguntou ao então chefe do GSI se ele se opunha, se repudiava a defesa feita pelo deputado Eduardo Bolsonaro de um novo AI-5 no Brasil. Augusto Heleno disse que não iria comentar. Diante da insistência da deputada, o general respondeu, rindo-se, com uma provocação difícil de esquecer, mesmo em um país que padece de Alzheimer nacional:
“A senhora vai me torturar pra eu falar?”
Ao Brasil, melhoras.


