Os aniversários do 8/1 e o 'niver' do cunhado
Após três eventos principais de aniversário do 8/1 — em 2024, 2025 e 2026 —, o presidente da República participou de todos eles. Os do STF e do Congresso só apareceram no primeiro. O da Câmara, nunca.

Em 2024, no aniversário de um ano do 8/1, o então presidente do STF, Luis Roberto Barroso, e outros ministros do tribunal inauguraram no Palácio do Supremo a exposição “Após o 8 de janeiro: reconstrução, memória e democracia”. Os ministros Luiz Fux, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques não foram à cerimônia.
Naquele dia, após a cerimônia no STF, Barroso atravessou a Praça dos Três Poderes até o Congresso Nacional para participar do evento “Democracia Inabalada” junto com os presidentes dos outros Poderes da República. O então presidente da Câmara, Arthur Lira, não compareceu, alegando “problemas de saúde na família”.
Um ano depois, em janeiro de 2025, Barroso e Pacheco, ainda presidentes do STF e do Congresso, já não compareceram ao evento em Brasília para marcar os dois anos do 8/1 e a defesa da democracia. Barroso mandou uma carta, que foi lida no evento pelo então vice-presidente do STF, Luiz Edson Fachin. Pacheco, que sonha ser ministro do STF, justificou-se como quem tinha esquecido o “niver” do cunhado: “gostaria muito de participar, mas estou em viagem ao exterior, que havia programado antes”.
Lira, mais uma vez, não deu as caras. Na época, o presidente Lula tentou minimizar as ausências dos presidentes do STF, do Senado e da Câmara no aniversário de dois anos da tentativa de golpe de Estado: “um ato de defesa da democracia brasileira, mesmo se tiver um só cara, uma só pessoa, numa praça pública ou num palanque falando de democracia, já é suficiente”.
Nesta quinta-feira, 8, os atuais presidentes da Câmara e do Senado, Hugo Motta e Davi Alcolumbre, recusaram-se a participar da cerimônia no Palácio do Planalto pelos três anos do 8/1. Consta que o pretexto da vez foi que Lula vetaria durante a cerimônia — como vetou — o chamado “PL da Dosimetria”, anistia mal disfarçadinha a Bolsonaro e aos generais golpistas cuja tramitação Motta e Alcolumbre azeitaram no Congresso.
Fachin, agora presidente do STF, tampouco apareceu, quem sabe após algum dosímetro de radioatividade acusar alto risco de exposição na participação do presidente do Judiciário em evento de defesa de democracia onde seria vetada matéria de resto inconstitucional. O STF, porém, teve programação própria — e concorrida — de memória do 8/1 no Palácio do Supremo, à tarde, após o evento no Palácio do Planalto.
“O dever desta Corte, guardiã não apenas da Constituição, como também da memória institucional jurídica do país, é ir de encontro às palavras do nosso maior escritor, evitando que o tempo anestesie nossa sensibilidade e faça desaparecer não apenas a memória do malfeito praticado, mas de quem se levantou contra ele”, disse Fachin na tarde desta quinta, no STF, em uma referência a Alexandre de Moraes.

Já na Câmara e no Senado…
Até o início da noite desta quinta, os presidentes da Câmara e do Senado sequer tinham se manifestado sobre o terceiro aniversário do 8/1. Nas redes sociais do Senado, apareceu uma postagem sobre o 8/1 apenas no fim da tarde. Nas redes sociais da Câmara, nesta quinta, teve postagem até sobre a tramitação de um PL para proibir o uso de “imagens desrespeitosas à fé cristã” em desfiles de escolas de samba, mas até as 19h00, nada sobre o 8/1.
Então, hoje, o “placar” está assim: em três eventos principais — em 2024, 2025 e 2026 — de harmonia entre os Poderes em defesa da Democracia e para não esquecer os ataques do 8/1 à Praça dos Três Poderes, o presidente da República participou de todos eles, os presidentes do STF e do Congresso Nacional só apareceram no primeiro. O presidente da Câmara dos Deputados, nunca.
Nesta quinta, momentos antes de assinar o veto integral ao “PL da Dosimetria”, o presidente Lula citou em seu discurso na cerimônia no Planalto o poeta espanhol George Santayana: “aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo”.


