Os deserdados da terra e os 140 santos de travertino romano
Uma impressão do Vaticano para além das reproduções ordinárias por 10 euros de A Criação de Adão, de Michelangelo, vendidas na lojinha contígua à Capela Sistina.
Na praça de São Pedro, Cidade do Vaticano, 140 santos católicos espreitam do alto a multidão de devotos e a fila imensa para entrar na basílica homônima. Eles, os santos feitos de travertino romano, estão lá desde o fim do século XVII, início do século XVIII. Bem mais recente é a escultura Angels Unawares, inaugurada por Jorge Mario Bergoglio, o Papa Francisco, em 2019.
A escultura fica no lado oposto à entrada do enclave papal, à direita da basílica de São Pedro e, portanto, bem no caminho dos que enfrentaram a fila, finalmente conheceram, emocionaram-se e acabaram de sair do maior e mais importante edifício do catolicismo.
Poucos, porém, pouquíssimos devotos prestam atenção à impressionante escultura de bronze de migrantes flagelados e apinhados numa jangada, representando o sofrimento das pessoas que deixam seus países de origem não para fazer turismo religioso, mas por motivo de guerra, miséria, perseguição, tudo, enfim, o que lhes foi legado pelas potências da “civilização cristã ocidental”.
Angels Unawares é uma obra do escultor canadense Timothy Schmalz. No ano passado, após o assassinato de Charlie Kirk nos EUA, Schmalz homenageou o extremista morto com uma escultura em tamanho real de Kirk nos braços do próprio Cristo. A quem interessar possa, a escultura pode ser vista em uma universidade católica da Flórida, a oito mil quilômetros do Vaticano.
A quem interessar possa, entre as coisas que Charlie Kirk dizia antes de ser assassinado estava, por exemplo, que não conseguia sentir “compaixão como a de Cristo” por imigrantes que, segundo ele, “estão nos EUA há mais de 30 anos e não sabem falar inglês”.
Do lado de fora das muralhas do Vaticano, doentes, descalços e toda sorte de desgraçados pela miséria imploram por misericórdia. A quem vai, a quem vem. Alguns, de tão corcundas e de tanta eczema, parecem Salvatores saídos diretamente de O Nome da Rosa. Às vezes, quem vai, quem vem dá a eles uns trocados. A eles, 140 santos de travertino romano dão as costas.



