'Paramos, pensamos': uma crônica de Paris
“Fica a dica” do inestimável slogan do Le Monde Diplomatique: on s’arrête, on réfléchit (“Paramos, pensamos”).
Quem sai da estação de Saint-Michel para visitar a catedral de Notre-Dame de Paris, quem sabe para dar uma esticada até o prédio no Quarter Latin da personagem Emily, da série Emily em Paris, da Netflix, depara à beira do Sena com um monumento aos mortos em um episódio que nunca virou episódio de nenhuma série de streaming, nem da Netflix, nem da Disney: as manifestações de 1961 em Paris que foram um marco da revolução argelina.
“Em memória dos muitos argelinos mortos durante a repressão sangrenta da manifestação pacífica de 17 de outubro de 1961”, diz o monumento.
Nos dicionários, o verbo deparar é definido como “apresentar-se aos olhos de alguém”. A maioria dos visitantes de Paris que saem da estação de Saint-Michel rumo à Notre Dame, contudo, passa batida pelo monumento aos mortos da manifestação pacífica, posto que terminada em sangue, de 1961; a manifestação e a repressão que completam 65 anos neste Anno Domini de 2026.
A maioria segue em frente, com viseira daquele burro da Disney, o Bisonho, rumo à catedral, crentes que o corcunda Quasímodo é um personagem de Walter Elias Disney e para pagar dois euros no cartão Wise para acender uma vela para Nossa Senhora de Paris, nunca para render homenagem às centenas de mortos, feridos e desaparecidos nas ações revolucionárias das gerações passadas.
Quem passa pelas remanescentes bancas de jornais de Paris neste início de fevereiro de 2026 depara — ou nem por isso, como vimos — com a capa da mais recente edição do Le Monde Diplomatique, que diz: L’Amérique sans fard, l’Europe sans vie ( “A América sem filtro, a Europa sem rumo”).
E não estamos falando aqui da única barraquinha de comida (food truck?) ao lado da Sacre Coeur, onde pode-se comprar hot wine e american hot dog, mas sim do bisonho Emmanuel Macron ligando para Donald Trump nos dias de Assembleia das Nações Unidas — e de Trump ameaçando anexar a Groenlândia, território europeu — para brincar, submisso, indigno do Eliseu, que tinha sido bloqueado em Nova York por causa da passagem da comitiva do imperador do Queens.
“Fica a dica” do inestimável e muito francês slogan do Le Monde Diplomatique: on s’arrête, on réfléchit (“Paramos, pensamos”).



