Por que ler os clássicos
“Muitos elogiaram a proatividade do então comandante, mas também houve quem considerasse o conteúdo das mensagens como uma ameaça de intervenção.”
Faz sete anos de um clássico: entre os dias 12 e 13 de janeiro de 2019, o principal portal noticioso do país, o UOL, manteve em sua capa a cândida chamada: “Villas Bôas inovou ao usar o Twitter para se dirigir ao povo”. Uma chamada para matéria intitulada: “No Twitter, Villas Bôas 'redefiniu' comunicação do Exército, dizem generais”.
O contexto: no dia 11 de janeiro de 2019, o general Eduardo Villas Bôas, necromante do golpismo de coturno no Brasil, passou o comando do Exército para o general Edson Leal Pujol. Eram os primeiros dias do governo Bolsonaro. A reportagem do UOL esteve na solenidade de transmissão do cargo e ouviu outros dois generais: Paulo Chagas e Braga Netto.
A “inovação” de Villas Bôas a que a matéria se referia foi a tuitada feita pelo então comandante do Exército na véspera do julgamento do Habeas Corpus de Lula no Supremo Tribunal Federal, em abril de 2018. Se o STF concedesse o Habeas Corpus, Lula enfrentaria Bolsonaro nas urnas naquele ano, em vez de só em 2022.
O que fez, então, Villas Bôas? Ameaçou o STF, via Twitter. Assim:
“Nessa situação que vive o Brasil, resta perguntar às instituições e ao povo quem realmente está pensando no bem do País e das gerações futuras e quem está preocupado apenas com interesses pessoais? Asseguro à Nação que o Exército Brasileiro julga compartilhar o anseio de todos os cidadãos de bem de repúdio à impunidade e de respeito à Constituição, à paz social e à Democracia, bem como se mantém atento às suas missões institucionais.”
O Habeas Corpus a Lula, como se sabe, foi negado.
“Villas Bôas inovou ao usar o Twitter para se dirigir ao povo”, “No Twitter, Villas Bôas ‘redefiniu’ comunicação do Exército, dizem generais”, noticiou candidamente o UOL em janeiro de 2019.
O general Braga Netto ainda não tinha participado de conspiração para golpe de Estado, para assassinato do presidente eleito da República, do vice e do presidente da Justiça Eleitoral. Mas o outro general ouvido pela reportagem do UOL, Paulo Chagas, tinha respondido assim ao tuíte de Villas Bôas, meses antes:
“Caro comandante, amigo e líder, receba a minha respeitosa e emocionada continência. Tenho a espada ao lado, a sela equipada, o cavalo trabalhado e aguardo suas ordens!!”
Ainda assim, dizia a reportagem:
“Agora ex-comandante do Exército, o general Eduardo Villas Bôas conseguiu em quatro anos à frente da Força criar um novo estilo de comunicação e interação com a sociedade. A opinião é dos generais Walter Braga Netto e Paulo Chagas, que compareceram nesta sexta-feira à solenidade de transmissão de cargo, em Brasília.”
E dizia mais, atualizando as definições do doisladismo para “proatividade” versus “intervenção”:
“Muitos elogiaram a proatividade do então comandante, mas também houve quem considerasse o conteúdo das mensagens como uma ameaça de intervenção.”
Tem gente que prefere nem tomar conhecimento, nem saber, nem ler, mas o termo “repúdio à impunidade”, considerado o termo-chave da ameaça do general Vilas Bôas ao Supremo, foi uma contribuição do então de chefe de gabinete de Villas Bôas no Forte Apache, o general Tomás Miguel Miné Ribeiro Paiva, atual comandante do Exército Brasileiro.
De lá para cá, entre o Forte Apache e o Vale do Silício, o que mudou indubitavelmente foi o nome de Twitter para X.
Por que ler os clássicos?
Italo Calvino responde: porque ler os clássicos é melhor do que não os ler.




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