Portugal: em liberdade, em democracia. Em paz?
Uma traulitada antifascista.
Voltamos a Lisboa para uma visita de médico, de dois dias, quase 20 anos após pegarmos o caminho de volta para o Brasil pelo aeroporto da Portela e 10 anos após o aeroporto da Portela ser rebatizado com o nome de um oficial general da Força Aérea de Portugal e notório opositor do regime de Salazar — Humberto Delgado, o “General Sem Medo”.
Em 2007, pegamos um avião de volta para o Brasil após uma temporada de pós-graduação no Centro Protocolar de Formação Profissional para Jornalistas (Cenjor), em Lisboa.
Neste domingo, 8, ao voltarmos ao nosso antigo endereço em Arroios, para matar saudades, notamos tudo igual, à exceção de um monumento inaugurado em 2017, 10 anos após nossa partida, pertinho do nosso velho e úmido sótão lisboeta; um monumento ao 25 de Abril com um grande e belo cravo, uma placa de homenagem ao capitão Salgueiro Maia e os dizeres:
“A 25 de Abril de 1974 terminava o regime autoritário iniciado com o golpe militar de 28 de maio de 1926. Portugal viveu durante esses anos a Ditadura Nacional (1928-1933) e o Estado Novo (1933-1974). A Revolução dos Cravos, como ficou conhecida, foi liderada pelo Movimento das Forças Armadas e permitiu a Portugal viver em Liberdade, em Democracia e em Paz. Símbolo do 25 de Abril, este cravo é uma homenagem à memória desses acontecimentos e dos seus protagonistas, recordando o valor da Liberdade e reconhecendo a coragem e a determinação de todos os que lutaram para que esse dia fosse possível”.
Neste domingo, em Portugal, para além, muito além das lembranças prosaicas de antigos habitantes do sótão do número 28 da rua da Bempostinha, na freguesia de Arroios, estiveram em jogo os valores de Abril na disputa do segundo turno da eleição para o Palácio de Belém; no segundo turno para a presidência da República portuguesa entre o candidato da internacional fascista e o do campo democrático, ainda que António José Seguro, do Partido Socialista, não represente exatamente de forma contagiante os valores de Abril.
Neste domingo, em Portugal, o fascismo foi derrotado de lavada. Nesta segunda-feira, 9, “o país acorda mais Seguro”, conforme o trocadilho do Público, principal jornal português.
Que os festejos pela traulitada antifascista sejam bonitos, pá, mas não a ponto de fazer esquecer que o fascismo forçou um segundo turno na eleição para Belém pela primeira vez em mais de 40 anos; que Portugal segue livre, democrático, mas não em paz.



