Sambinha novo, Orfeu?
"Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar. Já bateu a meia-noite, Carnaval vai acabar".
Plutão (bradando):
Alegria! É o reinado da alegria! Amanhã é Cinzas! Hoje é o ultimo dia! E viva Morno! E viva a folia!…
(…)
As Mulheres (acompanhando o bumbo e a cuíca em ritmo de marcha):
Ciranda, cirandinha
Vamos todos cirandar
Já bateu a meia-noite
Carnaval vai acabar.
Orfeu (os braços para o alto):
Não, não morreu!
(…)
Plutão e Prosérpina riem e se abraçam, já meio dormindo.
As Mulheres:
O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou…
Orfeu (que se pôs a beber de uma garrafa, exaltado):
Não! Era o maior amor do mundo! Era a vida, era a estrela, era o céu! Era o maior amor do mundo, maior que o céu, maior que a morte! Eurídice, querida, acorda e vem comigo…
As Mulheres:
Nessa rua, nessa rua tem um bosque
Que se chama, que se chama solidão…
Orfeu (clamando):
Eurídice, vem comigo!
As libações continuam, gerais. Vários casais já dormem pelo chão. Alguns ainda dançam sambas caprichados, sem música. Um casal de malandros dança um em frente ao outro, jogando capoeira.
(…)
A aurora raia, pouco a pouco, entre as sombras rubras.
Orfeu, voltado para fora, exclama.
Orfeu:
É a madrugada, Eurídice. Lembra, querida, quantas madrugadas eu vi nascer no morro ao teu lado? Lembra, Eurídice, dos passarinhos que vinham aceitar o desafio do violão de Orfeu? Lembra do sol raiando sobre o nosso amor? (Ergue os braços para a aurora) Eurídice, tu és a madrugada! A noite passou, a escuridão passou. Espera, minha Eurídice! Eu vou, me espera…
***
Niterói, terça-feira gorda de 2026. Aqui, o amor venceu o medo, depois de descer ao Hades.
Ali, do outro lado da baía, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, acontecia há 70 anos — em 1956 — a primeira encenação de Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes, com músicas de Tom Jobim e cenários de Oscar Niemeyer.
“Nós ainda estamos aqui no Brasil de Rubens Paiva”.



