Ainda sobre 'ah, gente, eu acho tão cafona essa coisa de imperialismo'
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Em uma breve clipagem do que saiu nos principais veículos da mídia internacional após os EUA invadirem a Venezuela para sequestrar Nicolás Maduro e o petróleo venezuelano, verifica-se que o francês Le Monde, por exemplo, publicou editorial intitulado “O retorno do imperialismo predatório dos EUA”.
“Com essa operação, justificada pela duvidosa acusação de ‘narcoterrorismo’, os EUA fizeram o continente americano retroceder mais de um século, agora como uma superpotência militar. Na coletiva de imprensa realizada horas depois da demonstração de força de Washington, Trump deixou claro, ao mencionar repetidamente o petróleo venezuelano, que essa nova onda de imperialismo americano é tão predatória quanto no passado”, diz o Le Monde.
O britânico The Guardian publicou um longa matéria sobre a longa história de intervenções dos EUA na América Latina. Alan McPherson, professor de história da Universidade Temple e autor de “Uma Breve História das Intervenções dos EUA na América Latina e no Caribe”, disse à reportagem: “poderíamos pensar que esta era de imperialismo descarado — em que os EUA obtêm os resultados políticos que desejam na América Latina através da pura força militar — terminaria no século XXI, mas claramente não terminou”.
A expressão “imperialismo descarado” foi alçada a título da matéria, na qual recorda-se — na imprensa estrangeira — que, mais de 60 anos antes de Trump posicionar uma força-tarefa naval no Caribe para intervir na Venezuela, “uma força-tarefa naval dos EUA foi posicionada na costa do Brasil para intervir caso houvesse resistência ao golpe militar que depôs o presidente de esquerda democraticamente eleito, João Goulart, em 1964”.
Horas atrás, o Guardian pôs assim no assunto da newsletter sobre a edição de sábado do jornal: “uma nova era do imperialismo”. Na newsletter, o subeditor do Guardian, Owen Gibson, diz que “Donald Trump e seus aliados deixaram claras suas ambições de dominar o hemisfério ocidental pela força bruta, num retorno ao imperialismo do século XIX”, e convida à leitura de um artigo do correspondente Julian Borger intitulado “A ambição territorial de Trump: novo imperialismo ou um caso da roupa nova do imperador?”.
(O Come Ananás não é The Guardian, mas, como já faz um bom tempo que não passamos o chapéu, e como estamos bem precisados de apoio, tomamos emprestadas as palavras do Owen Gibson no fim da newsletter: “nosso jornalismo é financiado pelo apoio voluntário de nossos assinantes. Se você ainda não contribui e tem condições, considere apoiar nosso jornalismo hoje mesmo”).
No artigo de Borger — “a leitura de sábado” no Guardian —, as palavras imperialismo, imperialista ou imperial aparecem nada menos que 16 vezes, nenhuma delas entre aspas.
Até a estadunidense CNN publicou artigo intitulado “O novo imperialismo de Trump evoca um período sombrio de mudanças de regime pelos EUA”. Na New Yorker, “A Insensatez do Imperialismo Petrolífero de Trump”. Até o Financial Times, baluarte, digamos, de etapa após etapa do capitalismo, falou em editorial sobre uma “nova era do imperialismo de recursos” — energia e minerais críticos.

Pode-se objetar que falar em “imperialismo predatório” é tipo um pleonasmo e que falar em “retorno” do imperialismo é meio que falar da volta dos que não foram, mas enquanto isso, no Brasil, a agressão imperialista dos EUA à Venezuela só aparece como “agressão imperialista” dos EUA à Venezuela (assim, entre aspas) e Pablo Ortellado publica artigo no Globo no qual a palavra imperialismo, sozinha, não aparece nem uma vez, mas as expressões discurso anti-imperialismo, retórica anti-imperialista e retórica anti-imperialista bolivariana, quase 10.
E não vamos esquecer do vídeo de um ano e meio atrás mas que só agora — pudera — viralizou: o de Mariliz Pereira Jorge dizendo num podcast, e Malu Gaspar concordando, que “ah, gente, não sei vocês, mas eu acho tão cafona essa coisa de imperialismo. Nossa, eu acho muito cafona a coisa do imperialismo”.


