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À exceção do artigo “Cláudio Castro e o tesouro da Maré”, sobre mais uma criança, aluno de um Ciep, baleada durante uma operação policial no Rio de Janeiro, a semana no Come Ananás foi toda dedicada à prisão de Bolsonaro e à primeira vez que militares das mais altas patentes das Forças Armadas do Brasil foram presos por golpe de Estado, ainda que nenhum dos quatro oficiais-generais de quatro estrelas — três generais de Exército e um almirante de esquadra — tenha ido de fato, no duro, para trás das grades.
Em “Sabe o que causa alucinações?”, citamos as técnicas de tortura empregadas pela ditadura brasileira com efeitos diretos na esfera psíquica dos presos políticos, “tais como alucinações e confusão mental”, conforme assinalado no relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Lembramos os suicídio de Frei Tito, que alucinava com visões do delegado Fleury, e Carlos Alexandre Azevedo, torturado por Fleury quando era bebê e que por isso tomava antipsicóticos. E, portanto, conforme o fim do artigo:
“Que não se atrevam, certos portadores de CRM, de OAB e de credencial da Folha de S.Paulo; que não venham com “certa paranoia causada por medicamentos”, “vozes saindo da tornozeleira”, “alucinações causadas por pregabalina misturada com sertalina”. Não depois da “cura por hidroxicloroquina”. Não para encobrir patente tentativa de fuga — com maçarico, com tudo — de defensor da ditadura, fã de torturador e condenado por tentativa de golpe de Estado”.
Ainda a propósito de a defesa de Jair Bolsonaro ter dito que Bolsonaro torturou a tornozeleira eletrônica por motivo de reação incomum a interação medicamentosa, recapitulamos, em “Reações psicológicas comuns em ‘lideranças de perfil conservador’”, que Filipe Martins também não fez gesto supremacista nenhum, apenas ajeitou a paletó; que o general Freire Gomes não apoiou os acampamentos golpistas em 2022 em nota conjunta das Forças Armadas, quis apenas “passar uma mensagem de pacificação à população e às instituições”; que o general Braga Netto não se encontrou com militares para tramar Punhal Verde Amarelo, apenas topava com colegas de farda quando levava o cachorro pra passear; e que o deputado Marcos Pollon (PL-MS) não queria impedir o funcionamento da Câmara no motim parlamentar de agosto, apenas não entendeu o que estava acontecendo porque é autista.
No dia em que os generais Heleno, Braga Netto e Paulo Sérgio e o almirante Garnier começaram a cumprir pena, salientamos no artigo “Quatro quatro estrelas vão para o xadrez” que o general Heleno tinha 57 anos quando comandou o massacre de Cité Soleil, no Haiti, tinha 75 quando andou dizendo aos quatro ventos que “bandido não sobe a rampa”, tem hoje 78 anos e terá ou teria 99 ao fim da sua prisão, a depender da progressão, das doenças e dos direitos humanos, aqueles cuja observância o general Heleno tanto e tanto queria reservada apenas, inapelavelmente, para “humanos direitos”.
Naquela altura, ainda não tinha pintado a informação de que o general Heleno disse ao Exército, quando foi preso, que sofre de mal de Alzheimer.
Em “Prisão nos Andes e no Planalto Central”, a propósito das condições especiais da execução penal dos militares do “núcleo crucial” da conspiração golpista, recorremos ao filme Prisão nos Andes, de 2023, dirigido por Felipe Carmona. No filme, cinco notórios torturadores e assassinos da ditadura de Pinochet cumprem pena confortavelmente em uma estância no sopé da cordilheira, bem diferente dos calabouços de morte e desespero da Direção de Inteligência Nacional (Dina).
Em uma cena do filme, o general Manuel Contreras, ex-diretor da Dina e “pai” da Operação Condor, recebe uma equipe de TV na aconchegante sala de estar da Penal Cordillera, para dar uma entrevista. Segue-se entre a repórter e o apenado o diálogo abaixo:
— General Contreras, você acredita no Céu?
— É claro.
— E quem espera encontrar no Céu?
— Com Deus.
— E com Pinochet?
— Não faço ideia.
— E com os milhares de torturados e desaparecidos durante a ditadura?
— Veja, eu nunca matei ninguém, nunca torturei ninguém. Sim, houve castigo, mas para os terroristas, marxistas-leninistas que queriam transformar este país em uma nova Cuba. Aqui havia uma guerra civil e eu cumpri meu dever como general do Exército do Chile.
— Você, junto com os outros presos, foi condenado a mais de 800 anos por violações de direitos humanos.
— Veja, isto aqui não é uma prisão. Este é um lugar que foi feito especialmente para nós, oficiais do Alto Comando do Exército do Chile.
— Não, há guardas aqui, não militares.
— Não, eles estão lá fora.
— Estão aqui.
— Estão lá fora!
— Há um guarda atrás de você.
— Ah! Não… (risos) Esse está aqui para segurar a minha bengala.
Quando pintou a informação do Alzheimer do general Augusto Heleno, publicamos o artigo “‘O senhor se esqueceu disso, general?’”. O título do artigo é uma pergunta feita pelo deputado Duarte Jr. (PSB-MA) a Heleno durante o depoimento do general na CPMI do 8 de janeiro, em 2023.
“Vou permanecer calado”, respondeu Heleno.
De resto, calado permaneceu o general Heleno ao longo dos últimos sete anos sobre ser “portador de demência de Alzheimer em evolução desde 2018”, levantando o famigerado dedo nervoso do Haiti para falar sobre Alzheimer só agora, quando foi preso por organização criminosa armada, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado; contando só agora, a caminho da cana, sobre a doença e contando com a doença para ganhar da democracia esquecimento e prisão domiciliar.
Por fim, em “Gen. Heleno, seu golpismo e sua doença”, citamos o que Dias Gomes e Ferreira Gullar puseram na peça Dr. Getúlio, sua vida e sua glória, de 1968, em homenagem do Come Ananás aos fatos de que o quadro de Heleno passou a ser documentado logo após ele ser indiciado pela Polícia Federal, em novembro do ano passado, e de que o diagnóstico de Alzheimer saiu às vésperas da denúncia dos golpistas pelo professor Gonet, em fevereiro deste ano, além de a doença só ter sido informada em ato contínuo à prisão do general, na última terça-feira, 25:
E enquanto essas coincidências
iam assim coincidindo,
num clube então existente,
um homem muito ladino
fazia uma conferência
sobre um tema pertinente,
com este título: “Como
se depõe um presidente”.
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