'Come ananás, mastiga perdiz': repassando a semana e passando o chapéu
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Domingo é dia de repassar o que foi publicado no Come Ananás ao longo da semana e de passar o chapéu por apoio ao nosso trabalho.
Na segunda-feira, abrimos a semana com o artigo “Lula na Marambaia: quando a exaltação da natureza elimina a política e ignora a pororoca”, de Sylvia Moretzsohn. Na contramão do sucesso feito no campo progressista pelo vídeo de Lula na Restinga da Marambaia — no qual o presidente pede o fim do “preconceito entre esquerda e direita” já que “ondas vindas da direita e da esquerda se juntam para construir o mar” —, diz o artigo:
“O ano eleitoral está aí e todo mundo sabe que vai ser punk.”
“Despolitizar, não demonstrar claramente que há um inimigo feroz a combater, fingir que é possível conciliar com forças determinadas a destruir nossa já tão frágil democracia, seguramente não é o melhor caminho para enfrentar a tempestade.”
“Ou, pior ainda, o tsunami.”
Ainda na segunda, publicamos “Vale muito a pena dar uma olhadinha em Wagner Moura”. A propósito dos prêmios a O agente secreto e a Moura no dia anterior, no Globo de Ouro, lembramos que há pouco meses um deputado federal bolsonarista, Gustavo Gayer, tentou incitar, atiçar, açular o trumpismo contra o ator brasileiro nos EUA.
“Esse cara está morando nos EUA e continua apoiando Moraes, atacando Trump e dizendo que os EUA agora é uma ditadura. Acho que vale a pena dar uma olhadinha nesse extremista”, postou Gayer no Twitter/X em setembro do ano passado, marcando o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e só faltando pedir para Rubio pôr, digamos, um agente secreto na cola de Wagner Moura.
De lá para cá, enquanto Wagner Moura tem sido aclamado mundialmente, Gustavo Gayer foi indiciado pela Polícia Federal, em dezembro, por associação criminosa, falsidade ideológica, falsificação de documento particular e peculato, por suspeita de desvio de cota parlamentar.
Na terça-feira, em “Por que ler os clássicos”, marcamos o sétimo aniversário, afinal, de um clássico: o dia em que o maior portal de notícias do país pôs em capa uma chamada dizendo que o general Eduardo Villas Bôas, que tinha ameaçado o STF via Twitter horas antes do julgamento de um Habeas Corpus de Lula, “redefiniu a comunicação do Exército” e “inovou ao usar o Twitter para se dirigir ao povo”, citando a “opinião” de dois generais, entre eles Braga Netto.
E dizia mais, o clássico do UOL, candidamente e atualizando as definições do doisladismo para “proatividade” versus “intervenção”:
“Muitos elogiaram a proatividade do então comandante, mas também houve quem considerasse o conteúdo das mensagens como uma ameaça de intervenção.”
Na quarta, em “O delírio vitimista dos Bolsonaro”, Alex Soares desmontou, afinal, o delírio de que a condição da prisão de Jair Bolsonaro na Superintendência da Polícia Federal em Brasília seria muito mais severa que a de Nicolás Maduro no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, referido nos EUA como “inferno na Terra”. No dia seguinte à publicação do artigo, Bolsonaro foi transferido para a Papudinha, onde terá ainda mais regalias.
Na quinta-feira, em “‘Gripezinha’, Papudinha”, lembramos que o deputadozinho que virou presidente da República e que ridicularizava o “gordinho”, falava em “mariquinha”, chamava homem preto de “escurinho” e de “gripezinha” a doença que matou 700 mil brasileiros, que humilhava jornalista no “cercadinho”, que tem filho que fazia rachadinha, que foi parar na Papudinha; lembramos que este homem referiu-se certa vez ao presídio de Pedrinhas, o presídio maranhense onde presos apareciam decapitados, como “a única coisa boa do Maranhão”.
(Após a publicação do artigo, uma assinante do Come Ananás lembrou, muito bem lembrado, que o detento “também é pai do Bananinha”)
Também na quinta, em “O plano Punhal Verde e Amarelo e o Plano de Trabalho do Exército para o general Mário Fernandes”, chamamos a atenção para que o general Fernandes, autor do plano para matar Lula, Alckmin e Moraes no âmbito da conspiração golpista de 2022, vai trabalhar em sua “cela” no Comando Militar do Planalto fazendo “revisão de produtos doutrinários e literários” e “produção de textos técnicos sobre história militar, estrutura da Força, doutrina militar terrestre” para a Diretoria do Patrimônio Histórico e Cultural do Exército e para o Centro de Doutrina do Exército.
Isso após surgir a notícia de que outro general condenado por tentativa de golpe de Estado e cumprindo pena no Comando Militar do Planalto, o general Paulo Sergio Nogueira de Oliveira, ex-ministro da Defesa de Bolsonaro, irá fazer “a revisão doutrinária do Exército Brasileiro”, “ler e sugerir a atualização de livros e manuais da Força”.
Dissemos no artigo que, “nessa toada, não demora e condenados por violência doméstica vão sugerir atualizações da Lei Maria da Penha e em breve autores de homicídio qualificado vão produzir material sobre o Espírito das Leis e fazer a revisão doutrinária das bases do Pacto Social”.
E neste sábado, em “O quarto branco do BBB e a ‘geladeira’ da ditadura”, mostramos as impressionantes semelhanças entre as “provas de resistência”, “provas do líder”, “quarto branco” do programa Big Brother Brasil e modos e técnicas de tortura empregadas pela ditadura civil-militar contra presos políticos, e concluímos:
“Há uma grande, enorme, gigantesca diferença entre presos políticos, que muitas vezes não sobreviveram para descrever as sevícias a que foram submetidos, e ‘brothers’ e ‘sisters’ que voluntariamente se apresentam a tormentos e podem interrompê-los a qualquer momento apertando um botão. Mesmo assim, uma concessão pública de radiodifusão não deveria poder exibir, a título de reality show, sessões de ‘desgaste físico e emocional’ para forçar o esmigalhado a tomar ‘decisões impulsivas’. O nome disso é tortura”.
Já Come Ananás tem esse nome por causa do micropoema de luta, dístico revolucionário de Vladímir Maiakóvski que marinheiros revoltosos recitaram em coro quando investiram contra o Palácio de Inverno de São Petersburgo em outubro de 1917. Na tradução de Augusto de Campos (com direito a trocadilho com Luis Carlos Prestes): “Come ananás, mastiga perdiz/Teu dia está prestes, burguês”. Come Ananás é uma publicação assente em fazer diante dos fatos a mais fundamental das indagações, a indagação da luta de classes, sem a qual não é possível informar à vera sobre o Brasil e o mundo.
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